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quinta-feira, 4 de junho de 2026
ROCK: ONTEM & HOJE
Nas edições prévias desta coluna nós falamos muito sobre as bandas e cultura em geral do cenário roqueiro durante as décadas de 60 e 70. Porém, pouco falamos do fã de Rock durante estas décadas. Como eram os fãs; o que faziam; como conseguiam material; enfim, creio que os leitores mais jovens têm muitas dúvidas sobre como as coisas funcionavam há 30 ou 40 anos atrás. Desta forma, para melhor compreender como eram as décadas de 60 e 70 para um fã de Rock, resolvi pegar as dúvidas mais freqüentes e transforma-las numa espécie de f.a.q. (frequently asked questions – questões freqüentemente perguntadas) e tentar traçar um panorama geral de como eram as décadas passadas para quem curtia Rock ‘N’ Roll. Confira.
Quais foram as principais bandas que tocaram no Brasil durante as décadas de 60 e 70?
Vieram muitas bandas famosas, mas a grana era curta, havia muita repressão e nós, rebeldes adolescentes, apesar da dita liberdade, éramos constantemente vigiados pelos pais. Eu assisti a quatro grandes shows que foram um marco para todos aqui no Brasil como o Passport (Alemanha), Jean-Luc Ponty (França), Rick Wakeman com seu magnífico “Viagem ao Centro da Terra”, em São Paulo, e o melhor de todos, o Genesis (sem o Peter Gabriel), que também rolou em São Paulo, com uma lotação de 60 mil pessoas.
Como reagiam os fãs de Rock frente aos novos lançamentos de vanguarda como os primeiros discos do Black Sabbath ou Motörhead, por exemplo?
As coisas iam acontecendo e o pessoal já ia assimilando. Uns gostavam e outros demoravam um pouco mais para assimilar o novo som. Mas em geral todo mundo curtia. Menos a maior parte dos pais, que achavam que o Rock era um barulho insuportável. No caso do Black Sabbath, houve um impacto forte na mídia. Interferiu diretamente no comportamento dos jovens, tanto no aspecto social, quanto religioso. O som era místico e despertou muita curiosidade entre os roqueiros.
Haviam lojas especializadas que vendiam LPs, camisetas e demais materiais de merchandising?
Sim, mas eram em pontos específicos. Em Campinas/SP, tínhamos as Livrarias Brasil e Teixeira, além da famosa Raposa Vermelha (com novidades vindas da Europa e EUA). Em São Paulo, a Galeria do Rock era o centro geral. O material era farto, mas muito caro.
Haviam locais específicos para ponto de encontros de roqueiros durante estas décadas?
Em Campinas os roqueiros se reuniam nos bares City Bar e Paulistinha. Mas havia muitas festas em chácaras da periferia com muito som e curtição. Nos centros urbanos, aos finais de semana, rolavam muitas festas da pesada em casas de família, abertas a todos. O que hoje seria impossível devido ao marginalismo.
Como a sociedade encarava os cabelos longos, as roupas extravagantes e, principalmente, o som?
Com muita reserva. Para vocês terem uma idéia, numa escola de segundo grau onde estudei, só tinha cinco caras com cabelos compridos (eu era um deles) e éramos isolados, mal vistos e recriminados por qualquer razão. Mas no nosso meio (gangues) a coisa rolava maravilhosamente. Mas havia muitos babacas jovens também. As brigas eram poucas e quando rolavam eram entre gangues barra pesada com facas, correntes e pedaços de paus. Raramente revólveres.
Quais seriam as diferenças básicas entre roqueiros do passado e os atuais?
Estamos em outra sociedade. Nos anos 70 o papo geral era o ocultismo, as viagens lisérgicas, os OVNIs, as plantas de poder, etc. As preocupações maiores eram a Bomba H e a ecologia, e também a vida pós-morte, bem como a filosofia oriental. Os movimentos eram calcados mais na metafísica e no hinduísmo ou a crença na reencarnação, trazida pelo recente movimento hippie e pelos Beatles com seus gurus. Tanto que se você olhar para as roupas coloridas dos anos 60 e 70 verão claramente que foram inspiradas pelos hindus. O lance místico era ter visões, viajar com as plantas e LSD para depois trocar informações, fazer um som nas montanhas, nadar nu e chapado nas cachoeiras, deitar e ficar olhando para as estrelas durante horas. Foram décadas maravilhosas onde tínhamos mais liberdade que hoje, apesar de parecer o contrário. Hoje há muitos muros, muitas cidades, fios, casas, menos montanhas e árvores. Há muita gente acumulada nos grandes centros, muitos bandidos e marginalidade. Ninguém sai mais de casa para ficar deitado numa montanha sem ter medo de ser assaltado. O materialismo está no seu ápice e a parte espiritual em baixa. O ser humano se acomodou em ter muita coisa, mas deixou de “ser” algo. As rádios e TVs tocavam muito mais sonzeira que hoje, pois naqueles tempos só haviam coisas boas. Hoje as rádios e TVs só apresentam enlatados fúteis e idiotas. Se o pessoal não reagir contra esse lixo todo, então amigos, não haverá mais tempo nem nada para dizer às gerações futuras.
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