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sexta-feira, 5 de junho de 2026

1968: Os 12 Meses que mudaram a História do Rock

O ano é 1968. Por incrível que pareça, um marco grandioso na história do Rock. Justamente quando os Beatles encerram a carreira com o maravilhoso álbum Abbey Road, surgem novas bandas que viriam a ser os maiores nomes do estilo em todos os tempos. Capítulo à parte, os Beatles foram responsáveis por quase todas as vertentes do Rock. Lennon e Harrison sempre estiveram loucamente atrás do sentido existencial da vida. Foram a Índia e lá ficaram por um bom tempo discípulos do mestre Prabhupada, um swami (mestre) que viria a fundar a Ordem dos Hare Krishna no ocidente. Harrison se tornou um profundo devoto desta ordem (Bhakti Yoga) e ajudou o swami a fundar vários templos, tanto na Índia quanto no ocidente, entre eles o grande templo Radha Krshna, na Índia. Harrison incluiu, a partir do LP Revolver, as cítaras, tablas e músicas hindus, que daí por diante teriam papel importante no desenvolvimento da própria banda, além de influenciar diretamente todas as bandas futuras no psicodelismo. Lennon, rebelde e sarcástico, incansável pacifista, procurou um contato mais profundo com o ocultismo, indo bater nas portas do grande mago Aleister Crowley. Este ainda aparece na capa do álbum Sgt. Peppers, mais um grande marco musical da banda. Paul Mcartney sempre foi intelectual, mais materialista e voltado para os arranjos do grupo. E Ringo foi o catalisador. Vide as experimentações da banda no filme clássico, “Let It Be”, onde todos estavam praticamente sob o poder do LSD. Cada uma na sua, mas formando um todo que seria a maravilha da música de Liverpool. Voltando as bandas recém formadas em 1968, temos o vocalista e guitarrista John Fogerty, líder do Creedence Clearwater Revival, banda que fez basicamente sete álbuns inesquecíveis, calcados no Blues, Country e no Rock 'N' Roll básico. Ainda esse ano sai o primeiro álbum estraçalhante do King Crimson, In A Court Of Crimson King, liderado pelo excêntrico guitarrista, Robert Fripp. Foi uma devastação sonora que poucos compreenderam na época. Também debutaram neste ano, o Genesis, com o álbum From Genesis To Revelation, lançando o alicerce do que viria a ser uma das maiores bandas de Progressivo e uma das mais imitadas nos anos 70; o Jethro Tull, com o álbum This Was, tendo a frente o flautista, vocalista, letrista, compositor e violonista, Ian Anderson. Uma banda prolífera, com uma sonoridade única que gerou uma vasta quantidade de álbuns. Temos o Led Zeppelin, do mestre dos vocais, Robert Plant, e do feiticeiro das guitarras, Jimmy Page, lançando o seu primeiro e devastador LP. Sendo ainda que em meios de 1967, já haviam sido lançados álbuns do Yes, Procol Harum, Pink Floyd e The Nice (banda de Keith Emerson, na minha opinião, o maior tecladista da estrada do Rock). Surgia ainda a maravilhosa e eclética banda inglesa Van Der Graaf Generator, liderada pelo maluco Peter Hamill, guitarrista, compositor e tecladista, além de ter os vocais altamente sofisticados. Seu primeiro álbum, Aerosol Grey Machine, é obrigatório. Todas essas bandas mudariam o comportamento social mundial, dando origem ao movimento reacionário dos "hippies", os grandes festivais como o Woodstock e a maior e melhor fase da história do Rock. Não pretendo dar nesta coluna uma ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim, alertar aos leitores da enorme quantidade, qualidade e importância que foram os anos 60 e 70 para a arte geral do século XX. Neste período, compreendido entre 67 e 70, brotavam bandas fantásticas, cada uma com sua performance e estilo. Cito ainda a alemã Popol Vuh, os Rolling Stones, Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, Traffic, The Monkeys, The Birds, Shocking Blue, Frank Zappa, entre outros que, no decorrer da Universom, falaremos um pouco sobre. O que acontecia neste período era uma competição sadia entre os cabeças das bandas, para ver quem fazia o melhor e mais sofisticado som. Cada dia surgia um novo som que explodia nas rádios, TVs e revistas especializadas. Além do Keith Emerson ter testado o primeiro sintetizador moog para seu criador, Robert Moog, aparecia outra banda que faria do mellotron (teclado que imitava e reproduzia perfeitamente os sons de violinos, cellos, flautas e vozes humanas) seu instrumento principal, o Moody Blues. O legal nisso tudo, eram fatos que aconteciam todos os dias criando uma atmosfera mágica, linda e onírica. Me lembro quando o Guess Who (banda canadense) lançou em 70 o hit "American Woman". Todo mundo pensou que se tratava de um novo álbum do Led Zeppelin. Outros argumentavam que era o Creedence, devido a grande semelhança dos timbres vocais dos três. Também o The Who, que já estava arrebentando nas paradas, lança o polêmico álbum Who's Next, onde os membros da banda apareciam urinando numas ruínas. Por sinal, este é o melhor e mais sofisticado trabalho deles. Tinha ainda o Sweet, com vocais e pegadas muito semelhantes ao Led Zeppelin. O Atomic Rooster fazia misérias com o tecladista piloto de órgão hammond, Vincent Crane, uma lenda. Desta banda sairia o baterista Carl Palmer, futuro batera do Emerson, Lake e Palmer. Bem, vocês me perguntariam: e no Brasil, o que rolava? Caras, aqui rolava muita coisa boa: O Terço, Mutantes, Som Imaginário, Barca Do Sol, Som Nosso De Cada Dia, Terreno Baldio, Tellah, etc... Aqui vou enfocar o básico, um marco no Brasil. Se trata do Mutantes, lançando em 1968 seu primeiro álbum de mesmo nome. Caras, foi uma overdose! Os músicos eram altamente inovadores, com uma sonoridade única! Revolucionaram a música brasileira e fundaram junto com Gil, Caetano e outros, a Tropicália, um grandioso momento na nossa arte. Pasmem, Rita Lee era vocalista e flautista da banda. Arnaldo Baptista, um tecladista experimentador com uma voz feroz. Sérgio Baptista, seu brother, um guitarrista afiado com uma voz melodiosa. Para completar, tinha um grande baterista, Rui Motta. Seus álbuns seguintes foram obras primas, e em muitas vezes (pasmem novamente), superando os próprios Beatles em criatividade. Pode ser uma heresia, mas sei bem o que digo ouvindo seus trabalhos que hoje estão disponíveis masterizados em CD, no mercado independente. O triste disso tudo é ver a cara de "bosta" do povão assistindo e reprovando a banda num clássico especial ao vivo filmado na Rede Cultura. Os caras detonando no palco e a platéia morta de medo e repressão assistindo tudo aquilo meio "passados". Como vocês acham que estava o Brasil nesta época? Como todo mundo estava? Reprimidos, sufocados por guerras, problemas graves econômicos e muita estupidez. Tudo isso explodiu na música. Tivemos a Jovem Guarda com Roberto Carlos liderando a audiência. Foi excelente, pois inúmeras bandas se apresentavam neste programa, incluindo o famoso The Jet Blacks. Depois, Roberto broxou... Mas deu seu recado e marcou o movimento do Rock no Brasil. Aqui, nesta época, era difícil andar pelas ruas com cabelo comprido e roupas coloridas, pois a polícia parava, dava batida geral e muitas vezes agrediam as pessoas sem motivos. Nas escolas éramos as ovelhas negras. Em casa, os nossos pais não nos aceitavam. Eu, como músico, sei bem o que foi viver nessa época cheia de contradições. Mas, no todo, era muito melhor que hoje, pois havia mistério, menos poluição no ar, muita magia musical e a literatura era uma obrigação entre os freqüentadores de bares e porões Rockers underground. A literatura nunca esteve tão em alta quanto neste período. Carlos Castañeda, Edgar Allan Poe, Dante, Fernando Pessoa, Lobsang Rampa, Chiang Sing, Prabhupada, Osho e toda a sorte de literatura dramática, ocultista e com filosofia oriental, eram as bases do Rock 60 e 70. Tudo isso era mal compreendido no Brasil, como no festival da Canção (FIC), onde Walter Franco quebrou um violão e jogou na platéia que o vaiava porque não entenderam sua música intitulada "Cabeça". Walter fez um disco clássico do Rock brasileiro chamado Vela Aberta. Os Mutantes apareciam muitas vezes como banda de apoio de Gilberto Gil. Ainda, Geraldo Vandré, seqüestrado pelo militarismo, desapareceu durante anos por causa de sua linda música "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores". Era muito difícil conciliar dois mundos em conflitos... o nosso, dos jovens, e o dos nossos pais, com conceitos quebrados, arcaicos, reprimidos. Mas isso será assunto para nossa próxima edição. Até lá, escutem um hino a liberdade, a música "Sweet Freedom", do Uriah Heep. Nos encontramos por ai...

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